O poder da mídia - Jornal Nacional


A importância que a televisão assume no Brasil ainda não produziu, como resultado, o desenvolvimento de métodos de análise adequados de seus produtos. O mais frequente é que a televisão seja tomada a partir de abordagens mais gerais, macroeconômicas, históricas ou sociais, e que o programa televisivo, enquanto um produto cultural com certas especificidades seja deixado de lado. No caso do telejornalismo, a situação se agrava, em especial quanto ao seu caráter histórico, social e econômico.

As quase quatro décadas de existência do Jornal Nacional têm importantes consequências para o estudo do laço jornal-público. A questão do hábito aparece com força. Basta pensar que um enorme número de brasileiros com menos de 40 anos de idade praticamente teve contato com o JN a vida inteira.

O Jornal Nacional é líder de audiência desde sua fundação, em 1969. Em 2004, tinha média de 43 pontos do Ibope. Isso significa a sintonia de 68% dos televisores brasileiros, ou 31 milhões de telespectadores. O programa da Rede Globo é um dos telejornais mais vistos no mundo.

Ao jornalismo de televisão tem como objeto o Jornal Nacional, o mais antigo, famoso e criticado noticiário brasileiro. O formato do JN merece atenção porque, há décadas, se impõe como modelo de telejornalismo de sucesso a ser copiado e, ao mesmo tempo, como anti-modelo constantemente desafiado por profissionais de outras redes.

Sabemos que o Jornal Nacional, elabora um outro tempo, espaço e personagens para a persuasão do público. Por exemplo: o telespectador do Jornal Nacional tem a impressão de que o programa sempre acontece “ao vivo”, no mesmo momento em que é visto. É evidente também que seus apresentadores não são uma criação de computação gráfica e que objeto jornalístico “JN” nos impõe modos de relacionamento com o apresentador, um ser humano que se torna então uma personagem, quase alguém “da família”.

Em sua longa história, o JN, líder absoluto de audiência, passou por raríssimas alterações bruscas, mostrando a existência de um contrato enunciador-enunciatário sendo diariamente respeitado, gerando telespectadores fiéis, ou seja, audiência baseada em credibilidade. Existe uma grande consciência da importância do sentido de familiaridade, memória e segurança que o formato gera. A estratégia de fidelização, de criação de um hábito, é quase uma coação para que o principal noticiário da Globo mude muito pouco ao longo dos anos.

O Jornal Nacional nasceu e se desenvolveu subordinado aos interesses de uma elite civil e militar que governou o país por longos vinte e um anos, iniciado antes mesmo do surgimento desse telejornal. Tornou-se um importante instrumento na época da ditadura para divulgar comunicados oficiais, ignorando a tortura, a censura, a corrupção e todas as barbaridades que ocorriam durante o regime. O Jornal Nacional desenvolveu com perfeição a capacidade de ocultar ou relatar com superficialidade os fatos mais importantes do país.

Ao longo dos anos 1990, o Jornal Nacional passou por mudanças, lentas, graduais e um tanto superficiais. Depois de décadas, nos anos 1990, uma mulher assumiu a famosa bancada e foi necessário esperar a virada do século para ver um negro (esporadicamente) no comando do JN.

Do ponto de vista jornalístico, também ocorreram poucas mudanças. Os apresentadores que consagraram o jornal, como Cid Moreira, eram apenas reprodutores de uma pauta previamente decidida por diretores. O atual apresentador, William Bonner, também acumula o cargo de editor-chefe do jornal, assumindo responsabilidade pela pauta.

No entanto, as mudanças foram apenas de forma, para melhor se adaptar às inovações no telejornalismo e não perder espaço para outras emissoras. A superficialidade, as manipulações e a defesa dos interesses dos poderosos continuam até os dias atuais.

O Jornal Nacional é a ferramenta de manipulação mais poderosa existente no Brasil há muitos anos. O que se fala no Jornal Nacional não é contestado pelo cidadão mediano, é, simplesmente, aceito como verdadeiro. Por esses e outros motivos que o público do JN foi comparado ao acomodado personagem Hommer Simpson, por William Bonner, editor-chefe do tele noticiário.

O JN é um telejornal que não preza um contato muito próximo com seu público. Para isso, se utiliza de uma série de recursos para “neutralizar” o que a proximidade pode ter de indesejável, principalmente com relação à postura dos repórteres e apresentadores. Os jornalistas retiram de suas falas, por exemplo, qualquer característica que manifeste subjetividade, para se apresentarem como mediadores mais neutros entre público e notícia. O tom de voz é professoral. O figurino dos profissionais que aparecem na tela é clássico e discreto. No caso dos jornalistas, contudo, esse mesmo sujeito que vemos na tela apresenta quase todo noticiário sem falar “eu”. Ouve-se pouquíssimas vezes um “eu vi”, “eu conversei com”.

Ao mesmo tempo, os jornalistas encaram a lente da câmera e exercitam o “olho no olho” com quem os assiste. Temos um dos mais comuns efeitos de particularização. Desfaz -se a situação concreta de um sujeito que se dirige a uma enorme massa de telespectadores. Só que os profissionais do JN raramente exteriorizam emoções fortes.

O Jornal Nacional foi estrategicamente colocado entre duas novelas - a das sete e a das oito -, programas que também contribuem para a supremacia da emissora dentro e fora do país. A dobradinha tradicional do telejornal com as duas novelas intensificou o hábito de assistir à televisão à noite, muitas vezes em família.

Outro ponto que se pode observar são os curtos intervalos comercias e o slogan da Globo, “a gente se vê por aqui”, marca constante nos breves intervalos, demonstrando um intuito de manter o telespectador do Jornal Nacional sintonizado no programa.

O Jornal Nacional por diversas vezes apresenta uma notícia e, dentro do próprio programa, a atualiza, sempre de forma ágil. Alguém que está acostumado ao tipo de edição (na acepção de ato) do Jornal Nacional, ao entrar em contato com jornais do mesmo nível de outras redes, geralmente sente que os programas são mais “lentos”. A sensação de lentidão interfere na atenção do enunciatário. Isso mostra a importância do papel desempenhado pelo manejo aspectual do plano de expressão na produção de um sentido de aceleração do texto. O JN é mais acelerados em relação a outros. Se o mais importante jornal da Rede Globo começasse com uma reportagem longa, como a que fecha geralmente o programa possivelmente não obteria a mesma audiência.

Atualmente quando se fala em telejornalismo nos lembramos de Jornal Nacional, não apenas por ter sido o primeiro em rede nacional, mas também por ter se constituído em fenômeno cultural através da divulgação da informação, oferecendo-a como um produto informativo de consumo.

O telejornalismo – em especial o produzido pela Rede Globo – ilustra muito bem diversas considerações feitas na parte inicial do trabalho. Trata-se de um tema bastante estudado e comentado. No Brasil, uma das razões para tanta passionalidade – inclusive acadêmica – é o sucesso e o poder de mobilização e de desmobilização do telejornalismo e, notadamente, do Jornal Nacional. Pode-se concluir que todo o contexto imediato da produção da notícia veiculada no Jornal Nacional, desde a sua seleção, passando pela coleta de dados, até a edição, é extremamente ideológica.

Por: Lucia Nahás

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